segunda-feira, 26 de setembro de 2011
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
sobrevida
O prenúncio do pior já havia sido alertado. O pai, trêmulo e angustiado, subia as escadas do velho apartamento na espera de reencontrar seu filho depois de um ostracismo de seis meses. No último degrau, uma engolida a seco arranhava a garganta, ensaiando uma rouquidão nervosa e tensa. Eram oito da noite. O senhor estava inerte em frente à porta. Faltava-lhe coragem para erguer a mão e tocar a campainha. Um suspiro pesado tira-lhe momentaneamente a dor do prelúdio de uma má notícia. Sobe-lhe o sangue. O ressentimento revisita sua consciência.
- Filho bastardo! Fode a nossa vida e agora vem tripudiar pra cima de mim – exclamou para si mesmo.
A raiva já alterava sua cor pálida. A aparência serena e pacata convertia-se em uma expressão enrugada de ódio.
- Miserável, filho de uma puta. Deve estar fudido e agora vai pedir dinheiro. Como se não bastasse ter extorquido tua mãe até a morte - suspirou em pensamento.
Era chegada a hora de enfrentar a situação. Levantou a cabeça e, sem bater, colocou a mão na maçaneta para adentrar de forma impositiva. O primeiro susto: a porta abre sorrateiramente.
- Estava te esperando – balbuciou o filho.
- Vem, entra!
Ao chegar à sala, uma forte dor de estômago contaminou o velho homem . Naquele ambiente, tudo estava sujo e desorganizado. No chão da cozinha, baratas se alimentavam de um vômito antigo.
- Que merda é esta? Isto é um cativeiro? – esbravejou o pai.
- Sim, esta merda é o meu cativeiro. É tudo o que eu consegui herdar da tua vidinha medíocre.
- Tua mãe tinha razão. Eu deveria ter vendido esse pardieiro e te internar até tu virares gente!
O pai começara a ficar impaciente. Percebera que aquele encontro não poderia render qualquer tipo de reconciliação. E completou:
- Desembucha, guri. Por que me chamaste aqui?
O garoto ficou mudo. O tempo suficiente para o senhor perceber a magreza e a palidez do seu único filho.
- Fala, porra! – exclamou, desta vez um tom ressentido, já abaixando a voz.
- Eu estou morrendo! – disse o rapaz.
- Há dois meses eu descobri um câncer, o mesmo que levou a mãe. Está tudo espalhado. Não tem mais nada a fazer – completou.
O pai recuou dois passos. Toda a dor da recente perda da esposa veio à tona. Uma mistura de compaixão com ódio se alastrou no corpo em metástase.
- É isso que dá se meter com drogas. Agora vai ter que lutar pra viver. Eu te disse que...
- Disse o quê? - Ameaçou o filho.
- A vida inteira tu não me disseste nada. E não venha agora me aporrinhar com o seu palavreado pedante.
A distância, mesmo a física, de ambos aumentara. O pai, desesperado, segura o braço do rapaz.
- Vamos pra minha casa, filho. Temos que tratar essa porra!
- Tratar o quê? Não ouviu? Tá tudo espalhado. Acabou. Agora eu só quero ficar em paz!
- Escuta aqui, guri! Você vai se medicar, seu merda! Já não basta a tua mãe, que transformou a minha vida num inferno até o dia em que morreu?
O filho responde com rancor:
- Ela morreu por tua causa, filho da puta. Ela se apegou ao câncer para se livrar de ti.
Tomado pela raiva, o homem segura o filho pelo colarinho e o prensa na parede.
- Então morre. Morre sozinho. Sustente essa chaga aqui neste apartamento imundo.
Indignado, o rapaz disparou:
- Eu irei sim. Aliás, já estou morrendo. Cada dia padece um pouco mais de mim.
- Esses tumores já são meus, todos meus. E quero eles comigo até que se multipliquem e me devorem.
E completou, com os olhos marejados:
- E tem mais, “pai”, logo eu vou me transformar em um tumor, assim como a minha mãe. E terei prazer de me reproduzir dentro de ti e te proporcionar um prazer vicejante. Irei te fazer vomitar todas as merdas que fizeste em vida...
Irado, o pai dá um soco no estômago do filho que, impetuosamente, expele da boca um líquido marrom. O rapaz, caído no chão, começa a rir em um ritmo descompassado.
- Está plantado o teu destino, papai. Sua alma agora deve estar lavada!
Indignado, o pai abandona o apartamento para nunca mais voltar. Ao descer as escadas, outra forte dor no estômago castiga seu corpo. Era o início de um ciclo terminal, que, dias mais tarde, seria diagnosticado clinicamente.
Ao saber de seu prognóstico, um câncer em estágio avançado, o pai sentiu-se aliviado, como se fosse agraciado por uma autoindulgência.
O filho, já fatigado pelas complicações de sua doença, tentou voltar atrás e iniciar um tratamento que prolongasse, nem que fosse por dias, sua sobrevida. Uma nova vida.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Depois das sete
Ele é um redator normal. Tão comum quanto um pedaço de carne de segunda no açougue. Apenas mais um insignificante Severino com a sua rotina medíocre de 40 horas semanais. Olha para o relógio. Dez para as sete da noite. Fim do expediente e de seu langanho disfarce profissional.
Levanta-se, bate o ponto, finda a labuta e entra no carro. Ele e o breve silêncio, broncamente interrompido por um motor rodado pelos calos das estradas. Talvez esse seja o único ponto de afinidade que o redator tem com o seu meio de transporte: os pneus carecas, já desgastados de tanto vai-vem que não o leva para lugar algum.
Chega a casa. Sua família não está lá. Seus filhos não nasceram.
A luz se apagou, a festa acabou e as pessoas se foram. E agora, João?
Créditos finais
O término de qualquer relação revela uma interessante trama. Um enredo que precisa de um final previsível, mas ainda assim surpreendente. Que convença a todos que estão em volta. Aquele roteiro em que o bem sai vitorioso. O mal, punido ou mesmo perdoado. Mas sozinho. Faz parte do jogo cênico. É sempre assim. Alguém tem que perder.
Pôr fim a uma história exige conflitos e resoluções de nós. Deve parecer crível a quem assiste. Porque sim, todos nós devemos ao público satisfação sobre a nossa vida particular. Quem vai ser o vilão? E a vítima? Qual será o desfecho? E o motivo? E o gran finale?
Toda história tem seu fim. E enquanto sobem os créditos, é comum alguém ficar sabendo de um nó que não ficou bem desatado. Uma trama paralela que não foi muito bem explorada. Aos espectadores, entretanto, pouco importa. O filme acabou. O herói, depois de muito sofrer, logra a prosperidade de um novo amor. Logo tem outra produção em cartaz. Com seu começo, meio e fim. Eterno enquanto dure. Porque o show tem que continuar.
Pôr fim a uma história exige conflitos e resoluções de nós. Deve parecer crível a quem assiste. Porque sim, todos nós devemos ao público satisfação sobre a nossa vida particular. Quem vai ser o vilão? E a vítima? Qual será o desfecho? E o motivo? E o gran finale?
Toda história tem seu fim. E enquanto sobem os créditos, é comum alguém ficar sabendo de um nó que não ficou bem desatado. Uma trama paralela que não foi muito bem explorada. Aos espectadores, entretanto, pouco importa. O filme acabou. O herói, depois de muito sofrer, logra a prosperidade de um novo amor. Logo tem outra produção em cartaz. Com seu começo, meio e fim. Eterno enquanto dure. Porque o show tem que continuar.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Azul
Meu mundo é do tamanho da minha gaiola.
Minha zona de conforto.
Aqui tenho comida, sombra e água fresca.
Proteção também. Por essas grades predador nenhum entra.
Até que você invadiu o meu espaço e abriu a porta do meu claustro.
Quanto atrevimento!
E ainda me incitou a voar.
Mas pra que bater asas? Arriscar-me em ares desconhecidos?
Aqui tenho a previsibilidade. A certeza de que tudo vai estar no seu devido lugar.
Pra que me exilar do criadouro? Pra que abdicar de tudo isso?
Assim mesmo tu me pegaste e me puseste para fora. Como um corpo expulso do ventre. Frágil e desprotegido.
Jogaste-me em outro mundo, maior e sem limites.
Aos poucos bati asas. E alcei meu primeiro voo ao desconhecido.
Acuado, planei na imensidão. Um prazer vicejante invadiu o meu corpo. Era o vento me acariciando. A liberdade de uma nova existência. Celeste, alva, alvissareira.
Vivo o improvável, o desconhecido. O claro e o escuro. O todo e o nada.
Minhas extensões mudaram e minhas asas ganharam imponência.
Não sei aonde vou e nem onde vou chegar.
Nem sei mais o que sou.
Sei que meu mundo mudou.
E tu me deste a liberdade.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Mais dia, menos dia

Está chovendo.
E eu aqui.
Covarde e encolhido, com receio de me molhar.
Medo de sentir meu pé na grama, de ficar gripado.
É mais cômodo ficar estático, acender um cigarro e acompanhar tudo da janela.
Ou então chamar minhas filhas e comer um bolinho de chuva ao som dos trovões.
As gotas varrem o chão lá fora.
E eu na lama, dentro de casa.
Olhando as folhas serem guiadas pelo vento, tal qual minha vida,
dependente de uma brisa que me leve para algum lugar.
Mas não. Cá estou, rodeado de semanários antigos e recortes de outras vidas, em uma casa que não me pertence.
Chove lá fora. Faz frio por aqui.
Seco domingo, áspero e longo.
Mais uma oportunidade para pensar que não me enxergas.
Para entender que minhas filhas sequer existem.
Que o bolinho de chuva é apenas mais uma covarde representação de tudo o que sonhava viver contigo.
A natureza desagua.
Eu me expurgo.
Cada dia mais murcho e áspero.
Mais uma tarde chuvosa, mais pensamentos nebulosos, menos uma chance, menos um dia.
Um dia tudo isso acaba.
Um dia.
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terça-feira, 4 de agosto de 2009
A hora da estrela
Tudo está aparentemente calmo. Trabalho com a mesa cheia de papéis e envelopes. Ao meu lado, minha xícara de café, companheira de todas as tardes. Estou no meu reduto de idéias, calado e com a minha habitual cara de cansado. Mal sabem que eu sou um ator. Que existe uma ópera dentro de mim. Um teatro cheio de gente, de todos os tipos, que aguarda ansiosamente o primeiro ato do espetáculo. Ninguém sabe que eu sou arrogante, tampouco que mando as pessoas à merda via pensamento. Tolos! Uma hora abro minha fossa e libero toda a minha podridão. Que não se vê, mas que existe. Dia desses vomito tudo aquilo que me faz mal. Jogo o lixo no ventilador.
Adoro a hipocrisia. Estou olhando para todos com cara de nojo. De vez em quando alguém percebe. Abro, imediatamente, um carinhoso sorriso dissimulado - geralmente retribuído na mesma moeda. Tudo igual, sempre a mesma coisa. Os mesmos horários, as mesmas pessoas, as mesmas piadas. Se pudesse cuspiria na cara de cada um de vocês, que me roubam, todos os dias, oito horas da minha vida. O que a gente não faz por dinheiro! E tem gente que diz que não se vende. Mentira. Todos temos um preço. O meu é baixo.
Valho pouco, produzo o mesmo tanto, na mesma escala, todos os dias. Sou mais um peão. Um zé ninguém que terá seu momento de glória. Logo me levanto e começo a chacina. Todos vão se lembrar de mim nessa empresa. Enquanto isso não acontece, levanto-me calmamente e me sirvo de mais café. Amargo.
Adoro a hipocrisia. Estou olhando para todos com cara de nojo. De vez em quando alguém percebe. Abro, imediatamente, um carinhoso sorriso dissimulado - geralmente retribuído na mesma moeda. Tudo igual, sempre a mesma coisa. Os mesmos horários, as mesmas pessoas, as mesmas piadas. Se pudesse cuspiria na cara de cada um de vocês, que me roubam, todos os dias, oito horas da minha vida. O que a gente não faz por dinheiro! E tem gente que diz que não se vende. Mentira. Todos temos um preço. O meu é baixo.
Valho pouco, produzo o mesmo tanto, na mesma escala, todos os dias. Sou mais um peão. Um zé ninguém que terá seu momento de glória. Logo me levanto e começo a chacina. Todos vão se lembrar de mim nessa empresa. Enquanto isso não acontece, levanto-me calmamente e me sirvo de mais café. Amargo.
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