quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Azul


Meu mundo é do tamanho da minha gaiola.
Minha zona de conforto.
Aqui tenho comida, sombra e água fresca.
Proteção também. Por essas grades predador nenhum entra.

Até que você invadiu o meu espaço e abriu a porta do meu claustro.
Quanto atrevimento!
E ainda me incitou a voar.
Mas pra que bater asas? Arriscar-me em ares desconhecidos?
Aqui tenho a previsibilidade. A certeza de que tudo vai estar no seu devido lugar.
Pra que me exilar do criadouro? Pra que abdicar de tudo isso?

Assim mesmo tu me pegaste e me puseste para fora. Como um corpo expulso do ventre. Frágil e desprotegido.
Jogaste-me em outro mundo, maior e sem limites.
Aos poucos bati asas. E alcei meu primeiro voo ao desconhecido.
Acuado, planei na imensidão. Um prazer vicejante invadiu o meu corpo. Era o vento me acariciando. A liberdade de uma nova existência. Celeste, alva, alvissareira.

Vivo o improvável, o desconhecido. O claro e o escuro. O todo e o nada.
Minhas extensões mudaram e minhas asas ganharam imponência.
Não sei aonde vou e nem onde vou chegar.
Nem sei mais o que sou.
Sei que meu mundo mudou.
E tu me deste a liberdade.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Mais dia, menos dia


Está chovendo.
E eu aqui.
Covarde e encolhido, com receio de me molhar.

Medo de sentir meu pé na grama, de ficar gripado.

É mais cômodo ficar estático, acender um cigarro e acompanhar tudo da janela.
Ou então chamar minhas filhas e comer um bolinho de chuva ao som dos trovões.


As gotas varrem o chão lá fora.
E eu na lama, dentro de casa.

Olhando as folhas serem guiadas pelo vento, tal qual minha vida,

dependente de uma brisa que me leve para algum lugar.

Mas não. Cá estou, rodeado de semanários antigos e recortes de outras vidas, em uma casa que não me pertence.


Chove lá fora.
Faz frio por aqui.
Seco domingo, áspero e longo.

Mais uma oportunidade para pensar que não me enxergas.
Para entender que minhas filhas sequer existem.
Que o bolinho de chuva é apenas mais uma covarde representação de tudo o que sonhava viver contigo.

A natureza desagua.
Eu me expurgo.
Cada dia mais murcho e áspero.

Mais uma tarde chuvosa, mais pensamentos nebulosos, menos uma chance, menos um dia.

Um dia tudo isso acaba.
Um dia.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A hora da estrela

Tudo está aparentemente calmo. Trabalho com a mesa cheia de papéis e envelopes. Ao meu lado, minha xícara de café, companheira de todas as tardes. Estou no meu reduto de idéias, calado e com a minha habitual cara de cansado. Mal sabem que eu sou um ator. Que existe uma ópera dentro de mim. Um teatro cheio de gente, de todos os tipos, que aguarda ansiosamente o primeiro ato do espetáculo. Ninguém sabe que eu sou arrogante, tampouco que mando as pessoas à merda via pensamento. Tolos! Uma hora abro minha fossa e libero toda a minha podridão. Que não se vê, mas que existe. Dia desses vomito tudo aquilo que me faz mal. Jogo o lixo no ventilador.

Adoro a hipocrisia. Estou olhando para todos com cara de nojo. De vez em quando alguém percebe. Abro, imediatamente, um carinhoso sorriso dissimulado - geralmente retribuído na mesma moeda. Tudo igual, sempre a mesma coisa. Os mesmos horários, as mesmas pessoas, as mesmas piadas. Se pudesse cuspiria na cara de cada um de vocês, que me roubam, todos os dias, oito horas da minha vida. O que a gente não faz por dinheiro! E tem gente que diz que não se vende. Mentira. Todos temos um preço. O meu é baixo.

Valho pouco, produzo o mesmo tanto, na mesma escala, todos os dias. Sou mais um peão. Um zé ninguém que terá seu momento de glória. Logo me levanto e começo a chacina. Todos vão se lembrar de mim nessa empresa. Enquanto isso não acontece, levanto-me calmamente e me sirvo de mais café. Amargo.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Signos de uma história de amor



[Eu] ?


[Tu] !


[Eu] ??


[Tu] !!


[Eu] ...


[Tu] ?


[Eu] ...


[Tu] ??


[Eu] ...


[Tu] ???

[Eu] .


[Tu] . ?


[Eu] . !


[Tu] : (


[Eu] : (


[ela] : )


[ela] : *


[eu] :*


[Tu] : (


[Tu] ...


[Tu] ...

sexta-feira, 8 de maio de 2009

A porta e as pedras


A porta ainda está aberta para você, amor. Mas entre com cautela. Levantei um muro de pedras atrás da fechadura. A única atividade que encontrei na tua ausência: juntar os escombros do que passamos e projetar uma nova obra. Fria, Grosseira, Estática.

Fiquei aqui sozinho. Num espaço que eu mesmo cerrei. Não tenho sol, mal tenho ar e a comida acabou. Estou condenado a apodrecer no claustro que construí. Ficou tudo escuro. Quatro paredes e eu. Frios, rígidos, inertes, mofados.

Prisioneiro da tua indiferença, suicida por necessidade. Logo a ferida seca e se inflama. Assim, tudo isso acaba e eu não fico mais só. Mas a porta ainda está aberta, amor. Se quiseres, traga uma picareta e destrua a fortaleza que tu mesmo arquitetaste. Corte-se, sangre, machuque-se. Tu sempre fizeste questão de dizer que em nosso amor nada seria fácil. A escolha é tua. Acomode-se e durma em sua colcha de cetim enquanto eu definho neste mausoléu ou resgate-me. Seu tempo - meu tempo - está se esgotando.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Amor tumor

O amor é um câncer.
Chega devagar, desregula o organismo.
Quando curado, deixa marcas.
Se fortalecido, traz desesperança.
Por vezes, enriquece a alma. Quando extirpado, deixa traumas.
Por fora tudo está normal. Exceto por minha aparência, arrogante e pálida.
Tua ausência aumentou minha sobrevida, longa e interminável.
Teu amor me fez doença.
Seu rancor me fez tumor.